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Ser estudante é dizer sim à ética

Ao lançarmos o olhar retrospetivo do nosso passado e perspetivarmos o futuro que procuramos desenhar dia-a-dia, ao realizarmos esse filme das várias fases da nossa vida, sem sombra de dúvidas que a etapa do Ensino Superior será dos tempos mais marcantes em termos de progresso de conhecimentos e abertura a novas experiências e mundividências. Talvez em nenhuma outra fase estaremos diante de tanta informação apelativa em simultâneo.

À medida que vamos crescendo em formação ao longo da vida, também nos vamos apercebendo melhor dos desafios e da complexidade das tarefas de aprendizagem e interação de conhecimentos que temos em mãos, exigindo-se de nós bem mais do que sermos meros repetidores ou transmissores do conhecimento, importando fundamentalmente sermos pensadores crescentes e com qualidade sobre o mundo conhecido e abertos (na responsabilidade) ao desconhecido.

Sabendo da experiência real da vida diária que precisamos de cumprir a lei da boa navegação e conduzir o nosso barco por águas profundas evitando embater em rochedos – o mesmo é dizer que a regulamentação que existe visa criar as balizas necessárias e as regras adequadas para chegarmos a bom-porto –, ser estudante também resulta nessa aprendizagem dos apreciados direitos e dos indispensáveis deveres.

Não há sociedade que sobreviva, com a conveniente qualidade e dignidade, se a reflexão e ação cívicas sobre os direitos e os deveres não estiverem devidamente assimiladas em sede própria, fazendo parte do caminho e da construção diária da liberdade. Hoje a noção de direitos e deveres vai-se sintetizando na ideia de responsabilidade, não vá a liberdade menos “livre” viver de tal ponto os direitos que se esqueça da correspondência dos deveres.

Também na vida académica e no próprio mundo estudantil, só com a norma – que terá de estar em convergência com um pretendido e agilizado serviço de qualidade – é que será possível atingirmos a meta da perfeição. Nestes domínios, à partida e para todas as partes, o (re)conhecimento dos regulamentos e procedimentos vigentes revela-se central, e naquilo que as normativas não correspondam, porventura, à atualidade…existem processos de auscultação e participação para serem ativados, em tempo e em sede próprias.

Como na sociedade em geral e num quadro de cidadania – que para nós podermos dizer universitária –, não exercer o direito e dever de participação normal e habitual em ordem à melhoria da qualidade naquilo que é o caminho coletivo, esvazia de credibilidade os apelos isolados e pontuais mais regidos pela “emoção do caso” do que pela visão madura e estrutural comunitária. Neste domínio – diríamos cívico universitário – ainda temos um longo caminho a percorrer.

O quadro de direito democrático em que vivemos e o exercício da liberdade inalienável de todos…não pode nem quer significar que o caminho seja feito de qualquer maneira e ao gosto de alguns para desprestígio de outros. A ética da responsabilidade terá de ser, para todos sem exceção, o terreno fértil onde se conjuga o bom “casamento” entre os direitos e os deveres. Só numa dimensão adulta de responsabilidades partilhadas e no acreditar – como ponto de partida para o diálogo construtivo – no funcionamento das instituições e regulamentações é que será possível o bem comum. Vivemos em interdependência de responsabilidades.

À reflexão que nos foi solicitada sobre os direitos e os deveres do estudante, optámos por registar primordialmente a ética da responsabilidade como a palavra-chave que nos poderá garantir, para cada caso e em geral, a boa concertação harmonizada das duas ideias muito sensíveis de direitos e deveres. Necessariamente inscreve-se neste processo o conhecimento essencial, à partida, das regulamentações que gerem os direitos e os deveres, cabendo aos processos de participação próprios o que poderá ser a jurisprudência da abertura ao futuro sempre em transformação.

O desafio da ética na gestão dos direitos e deveres poderá ser, com o pressuposto bom-senso, uma almofada de segurança e sustentabilidade, pois para todas as partes – estudantes, docentes, colaboradores, estruturas associativas e outras de liderança – resulta como pilar cívico e prospetivo que garante que diante de visões e opiniões diferentes sobre determinada matéria conseguimos obter a capacidade da superação, transformando a dificuldade em oportunidade e virtude de crescimento, pessoal como comunitariamente.

Concluindo, vale a pena assinalar das últimas duas décadas o crescimento global das reflexões sobre a ética – sinal dos tempos? – de que poderíamos salientar a Declaração para uma Ética Mundial (04-09-1993), a criação da Fundação de Ética Mundial (1995), o emergir da noção de responsabilidade humana como chave para o século XXI que alia direitos e deveres simbolizados na Carta das Responsabilidades Humanas (2001). Certamente que também ao estudante cidadão esta agenda global será importante no desenvolvimento local e pessoal. Progredir em conhecimentos terá de significar evoluir em mundividência e (cons)ciência ética. A Era da Responsabilidade do Séc. XXI desafia eticamente, para todos – ensino, investigação, ação, interação –, o modo como pensamos, agimos e sintetizamos.

última atualização a 30-04-2014
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