Entrevista ao Arqto. Egon Vettorazzi

Egon Vettorazzi é doutorando em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e docente no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal da Integração Latino‑Americana no Brasil. O docente encontra-se a terminar os trabalhos de investigação conducentes ao seu Doutoramento com o tema “Contribuições das estratégias Passive House para edificações energeticamente mais eficientes na região Sul Brasileira” e escolheu o Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro para desenvolver a sua pesquisa.


Uma vez que o seu trabalho está a ser acompanhado por membros da Associação Casa Passiva, tivemos a oportunidade de conversar sobre a sua investigação em curso e sobre a implementação do conceito Passive House às exigências do clima do Sul do Brasil.


Casa Passiva: Os seus trabalhos de investigação são desenvolvidos no âmbito do conceito Passive House e da sua adaptação às exigências do clima da região Sul do Brasil. Quais são as exigências desse clima e quais as principais particularidades?


Egon Vettorazzi: O clima do sul brasileiro tem períodos de frio e calor intenso, o que dificulta a adoção de uma única estratégia passiva, durante todo o ano. É preciso pensar em estratégias opostas, isto é, estratégias que minimizem o calor no Verão e o frio no Inverno. Assim, como o conceito Passive House, pensado inicialmente para climas frios do centro da Europa, necessitou de ser adaptado às realidades climáticas de Portugal, é necessário também pensar em formas de adaptar o conceito aos diferentes climas das várias regiões brasileiras. Como há semelhanças entre o clima do Sul do Brasil e o clima Português, a experiência da Associação Casa Passiva e dos seus membros investigadores da Universidade de Aveiro será muito importante para o meu trabalho.




Casa Passiva: Falar do conceito Passive House é falar de conforto térmico, de qualidade do ar interior e sobretudo de eficiência energética. Este conceito é conhecido no Brasil ou começa agora a chegar ao público brasileiro?


Egon Vettorazzi: Apesar do conceito ser definido na década de 1990, no Brasil apenas durante a última década começaram a surgir com maior frequência publicações sobre o tema. Em 2018 foi construída a primeira Passive House no Brasil, no Nordeste do país, em Natal‑RN. Então, pode-se dizer que é agora que o conceito Passive House começa a ser conhecido pelo público brasileiro.


Casa Passiva: Como é a aceitação e implementação do conceito Passive House no Brasil?


Egon Vettorazzi: O conceito ainda é relativamente novo no Brasil, por isso necessita de maiores estudos para a sua boa implementação. Não há dúvidas que as estratégias do conceito Passive House beneficiam a qualidade do ar interior e também o conforto térmico, mas para o caso brasileiro é preciso estudar também a questão cultural e construtiva. Ainda existe alguma resistência sobre utilizar novas tecnologias construtivas no país e é necessário também que determinados componentes, como janelas eficientes ou sistemas de ventilação com recuperação de calor, se tornem acessíveis financeiramente. Quanto ao aspeto cultural, é preciso realizar mais estudos, principalmente acerca da integração da hermeticidade da edificação e do sistema de ventilação com recuperação de calor com a abertura das janelas. Um estudo sobre isso está sendo realizado atualmente, num trabalho de doutoramento, na Universidade Federal de Santa Maria.




Casa Passiva: Quantas Passive Houses certificadas existem no território Brasileiro?


Egon Vettorazzi: Só há uma edificação Passive House construída no Brasil e está atualmente em processo de certificação.


Casa Passiva: Falando um pouco acerca do seu trabalho de investigação, em que consiste e quais os objetivos pretendidos?


Egon Vettorazzi: O trabalho que estou a desenvolver consiste em aplicar as estratégias do conceito Passive House às exigências do clima sul brasileiro, de forma a avaliar quais são os benefícios térmicos e energéticos e também qual a influência que pode ter no projeto arquitetónico. Se implicará ou não limitações ao projeto de arquitetura.




Casa Passiva: Temos sempre a ideia que eficiência energética, conforto térmico e qualidade do ar interior são temas do domínio da Engenharia Civil. Qual o papel da Arquitetura na conceção de uma Casa Passiva?


Egon Vettorazzi: Parece-me que as questões de conforto ambiental (térmica, acústica e de iluminação) na Europa são estudadas com maior frequência nos cursos de Engenharia Civil. No Brasil, felizmente para os arquitetos, essas questões são mais abordadas no curso de Arquitetura e Urbanismo. É claro que no curso de Arquitetura não são aprofundadas as questões mais técnicas como os cálculos mais complexos, mas os estudantes têm o contacto com várias estratégias possíveis de ser aplicadas para cada clima, com o objetivo de diminuir o consumo de energia, por exemplo. Sendo o Arquiteto o responsável pelo projeto de arquitetura, pensar na adoção de estratégias passivas é fundamental desde o início da conceção arquitetónica. Cada traço tem influência no desempenho térmico e energético do edifício e, por isso, é fundamental que o arquiteto conheça as estratégias possíveis para poder selecioná-las e utilizá-las da forma mais adequada em cada projeto.


Casa Passiva: Enquanto Arquiteto, construir um edifício segundo o conceito Passive House limita de alguma forma a criatividade e a conceção arquitetónica?


Egon Vettorazzi: As edificações consomem aproximadamente 50% da energia produzida no mundo, fazendo com que as estratégias passivas não possam ser vistas como limitadoras de projeto, e sim como um critério fundamental que todo arquiteto deve considerar. Adotar estratégias arquitetónicas passivas, significa levar em consideração o clima de cada local, valorizando suas peculiariedades e tornando cada projeto único. Um projeto passivo deve cuidar da orientação solar dos ambientes, do uso de elementos de controlo solar, da escolha dos materiais e da proporção entre os fechamentos opacos e transparentes, entre outros fatores. Considerando um projeto arquitetônico que já tenha estratégias passivas, o conceito Passive House, não terá interferências significativas, pelo menos em locais de climas frios. Em países de clima quente, a maior influência do conceito provavelmente será a necessidade de hermeticidade da edificação. No Brasil, por exemplo, é hábito a abertura das janelas para a ventilação natural, como forma de higienização do ambiente e também para interação direta do interior da edificação com o exterior e isso acontece até em dias frios. Mas também tem que se pensar que em grandes cidades, a poluição sonora e do ar não permitem que as janelas sejam abertas a qualquer momento. Concluindo, numa arquitetura que já tem preocupações com estratégias passivas, de uma forma geral, não há grandes limitações impostas pelo conceito Passive House para climas frios. Para clima quentes é necessário mais estudos para aprofundar essa questão. Porém, como qualquer outra tecnologia, é necessário conhecer bem as particularidades e possibilidades para desenvolver projetos adequados.




Casa Passiva: Relativamente à realidade Brasileira, em qual dos setores da construção (residencial, social ou de serviços, construção nova ou reabilitação urbana) mais facilmente se poderá aplicar o conceito Passive House? E em qual (ou quais) se poderá justificar a implementação deste conceito na forma de construir?


Egon Vettorazzi: Imagino que inicialmente poderá ser melhor aplicado nas edificações residenciais, uma vez que é esse o setor onde a maioria dos estudos estão a ser realizados no Brasil. Possivelmente nas habitações de interesse social será difícil a utilização do conceito num futuro próximo, pois a qualidade construtiva destas edificações é precária no Brasil e não se perspetivam melhorias neste âmbito. No setor comercial e de serviços, creio que terá boa aplicabilidade, mas ainda é necessário que o setor construtivo brasileiro tenha conhecimento do conceito e dos seus benefícios térmicos, energéticos e económicos.


Casa Passiva: Para concluir, porquê a escolha pelo Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro?


Egon Vettorazzi: Conheço os trabalhos realizados pela Associação Casa Passiva e pelo departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro desde 2013. Soube que aqui eram realizados trabalhos de investigação de adaptação das estratégias Passive House aos climas quentes do sul da Europa. Como o clima sul brasileiro tem certa semelhança com o clima sul europeu, pareceu-me interessante aprender com essa experiência já adquirida.





Para saber mais acerca do conceito Casa Passiva não deixe de visitar o nosso site ou de seguir a Associação Casa Passiva nas redes sociais.


http://www.ua.pt/casapassiva/


e-mail: casapassiva@ua.pt


Facebook: https://www.facebook.com/casapassivazeroenergy


Instagram: https://www.instagram.com/casapassiva/


 

última atualização a 02-05-2019
Este sítio web utiliza cookies sem recolher informação pessoal que permita a identificação dos utilizadores. Ao navegar neste sítio está a consentir a sua utilização.saber mais
Para que esta página funcione corretamente deve ativar a execução de Javascript. Se tal não for possível, algumas funcionalidades poderão estar limitadas.