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coleção carlos martins

Breve história da minha coleção de jazz

A coleção que cedi ao Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro é uma boa parte, cerca de metade, do total da minha discoteca de jazz. Mais exemplares se vão adicionando pouco a pouco a essa doação. Esta coleção começou a formar-se fisicamente a partir da minha chegada à Europa, em 1982. A minha discoteca anterior, estimada em cerca de 5000 unidades de LP, ficou no Uruguai e na sua maioria perdeu-se. A relação entre as duas discotecas está na sua origem. Antes de começar a trabalhar em rádio, em 1963, já escutava programas de música. Desde então, quis informar-me sobre a música que ouvia, tomando nota de nomes de artistas, canções, discos. Esses dados foram-me guiando nas minhas primeiras compras, discos de 78 rpm e de vinil, de jazz e coisas afins. Possivelmente essa base, a forma como se formaram os meus gostos musicais iniciais, com “ingredientes variados” e com um objetivo de qualidade, ajudou-me daí em diante a construir a minha discoteca sobre uma base de curiosidade e de amplitude de visão, para além dos gostos. E como “colecionador”, tratando de ter tudo o que “um bom colecionador deveria ter”.

Foi na Bélgica que comecei a melhorar os meus conhecimentos sobre jazz, e a poder ouvir muitos músicos de que nunca tinha ouvido falar. Aí não foi a rádio o meio de informação, mas sim uma instituição, a Médiathèque de la Commumauté Française de Belgique, e, de maneira incipiente, revistas especializadas. A Mediateca era uma instituição pública que emprestava discos e filmes aos seus sócios. Foi um instrumento fundamental, pois permitiu-me ouvir músicos e músicas diversos, permitindo-me aprender e formar os meus gostos. Já em Espanha, na ausência de uma instituição similar, subscrevi revistas de música, tanto de jazz como clássicas, e entre as primeiras algumas francesas (Jazzman, Jazz Magazine, Jazz Hot), italianas (Musica Jazz, Jazzit), espanholas (Cuadernos de Jazz e outras efémeras), portuguesas (o site do Sr. José Duarte), lendo ocasionalmente também alguma britânica (Jazz Journal International) e catalã (Jaç). Estas revistas, as suas notícias e sobretudo os seus comentários de discos serviram-me para ir fazendo longas “listas de compra”, realmente intermináveis. Desta forma, a minha coleção de jazz construiu-se com elementos muito variados, de todos os subtipos imagináveis e de quase todas as épocas. Como antes, esta coleção europeia foi-se formando sobre a base de buscas sistemáticas e comparações de opiniões de especialistas, para além da minha própria. Esta etapa foi então dominada por um “critério de colecionador”. Tinha de ter tudo o que era importante, e tudo o que era feito pelos artistas mais importantes; tendência geral: a coleção ideal, completa.

A etapa atual é a da simplificação, a que me leva a conservar só aquilo de que mais gosto, aquilo que penso voltar a ouvir e desfrutar. Já não há lugar na minha casa, nem tempo na minha vida, para esperar voltar a ouvir tantas gravações, e também não me resta esperança de voltar a trabalhar na rádio – que é onde poderia tirar proveito de uma coleção ampla e heterogénea. Daí a decisão de procurar de que forma essa discoteca poderia ser aproveitada coletivamente, com um sentido de serviço público, como fonte de informação e de formação, para além de prazer. Ao tomar conhecimento da criação do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, e da cessão por parte do Sr. José Duarte do seu acervo a este centro, pensei que seguir os seus passos era a melhor opção possível. Desta forma, o “critério de colecionador” foi transmitido, com a minha documentação jazzística, ao Centro de Estudos de Jazz. Na medida em que possa, penso continuar a colaborar com o Centro neste sentido, e em qualquer outro em que a minha experiência, formação e coleções possam ser úteis.

Carlos Alberto Martins
Tres Cantos, Maio de 2009.

[link para a coleção: sinbad]
última atualização a 09-04-2014
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